Tia Marita, querida.

O quantitativo não foi nosso forte, mas sua presença forte marcou minha vida. No qualitativo com abundância, foram poucas palavras entre tortas saborosas, mas teu olhar sempre me disse muito, ainda que eu alcance tais mensagens bem aos poucos, sem palavras, ao longo dos anos, enquanto vou crescendo, envelhecendo e sorvendo vagarosamente a magia dos invisíveis fios que nos conectam a familia, sucessão, ancestralidade… No qualitativo fomos infinitos, no afetivo e marcante encontro anual. Sim, os natais religiosamente aconteciam em sua casa, e maior que o mundo eram seus braços de anfitriã ímpar. Quanta elegância azeitada no aconchego do “a vontade” pode seu primor na arte de receber… e eu cresci me sentindo a vontade naquela casa que abrigava tantos dos meus que até hoje não alcanço todos os nomes. Sinto também os respingos brilhantes das marcas que você fez na vida de minha avó, Maria Suzana, sua irmã mais velha. Junto de meu pai e meus tios, muita farra boa costuraram no quintal da infância, meu pai dizia que feito primos cresceram. E olha que “primo” no vocabulário extenso do coração do meu pai, queria dizer algo que só alcanço vivendo, jamais explicando, ou escrevendo. Gosto de imaginar as lonjuras que você alçou nos seus voos com o cinema Marita, esse capitulo da sua vida, ainda não visitei. Fiquei tão aquecida nas almofadas de bolinhas na piscina, na madeira da cadeira de balanço na varanda, nas tortas infindas das tuas tão verdadeiras celebrações, que ainda não cheguei na mulher que falava em cinema quando ainda se espantava que mulher falasse…
Nunca te ouvi reclamar e teu sorriso fica na retina do meu afeto. Parando pra pensar parece até que sei pouco da sua vida, que nem combina com a imensidão que sinto quando penso em você. Vi pouco mas seguramente o suficiente – te vi ser mãe, irmã, avó com muita beleza… e hoje você parecia tanto a minha avó, tanto, que eu pude me despedir uma vez mais dela, e dos que já foram, como seu filho mais velho, meu pai.
Marita, amo ter seu capitulo no filme mudo que passa dentro do meu coração quando abre-se a lata da familia. Amo a familia que você construiu, Rita, Lula, Igua, Luis Alfredo – recebam meu amor imenso, e sigam firme, pois a firmeza é mais uma lição que ela deixa junto a uma versão encantadora de ternura, desromantiza, sem mel em excesso, sem jamais deixar faltar a doçura.
Obrigada Marita, por nos conceder a amplitude de uma despedida cujo tempero parece ser o de missão cumprida. Que você siga na luz!http://www.metropoles.com/entretenimento/cinema/morre-maria-rita-galvao-importante-pensadora-do-cinema-nacional

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