Na vitrola da minha vida tinha um disco do Queen. E ontem eu fui ver o filme…

A tela do cinema tomou as pupilas.
Correu as veias e arrebatou os tímpanos do ouvido que o coração é.
Os músculos deixaram pular memórias escondidas adolescentes-latente-vida-morte-vida.
Baixou em mim um choro terremoto das entranhas que toma o corpo todo.
É incrível que a vida passa, a gente se acostuma e deixa passar…
Deixa passar um monte de coisas. Ouros da alma. Mas guarda caixas, frascos, camisetas assinadas pelos amigos da escola.
Deixa passar sobretudo o sentido das papilas. Deixa passar o gosto. O gosto dos encontros. O encontro dos afetos. Encontros que não tinham personalidades como filtros. Mas pessoas conhecendo a vida, com toda abertura que isso imprime. Encontros que marcam a vida a ferro e fogo. Encontros de humanos a flor da pele, num tempo de espontaneidade e verdade. Humanos que pulam junto quando o solo da guitarra estoura a onda. A onda do mar da gente. Da gente que sente. Sente um mundo e nada pode quando o mesmo mundo passa, e se torna outro… Só amanhece na areia áspera da ressaca de um tempo que já passou. Já passou e sempre passa… e a gente não se acostuma que passa.
Porque a saudade sempre rala.
Mas o sal depois arremata.
Arde. E arremata.
Sal daquele mar que pula dos olhos quando a gente sente que não sente mais como sentia.
Mar da gente…. da gente que sente que a vida podia ser mais sentida.
Não como sentíamos quando adolescentes.
Mas o solo da guitarra estoura a onda da lembrança, de que eu topo tudo, menos ousar deixar afogar o impulso de continuar a sentir.
A gente não se acostuma que passa.
Porque a saudade sempre mata.
Mas renasce – para os que insistem em sentir.
A gente não se acostuma que passa.
Mas deixa passar o tempo… o tempo de sentir essa força.
Força do encontro. Do encontro da gente com qualquer coisa que nos faça sentir vivo… e logo depois essa força também passa… e agente se acostuma de novo com a vida, como se ela fosse estar sempre ai…
Mas algo fica. Fica a marca da vida sentida nas entranhas.
Entranhas que estranham que a gente não sinta a vida como sentia naquela época.
Em que só se tinha 15 anos de idade uma vez na vida e escutar o solo de Bohemian Rhapsody podia de verdade te transformar para sempre.
Pulávamos incontíveis, enquanto formávamos as sinapses que sem saber, passaríamos uma vida inteira repetindo, repetindo, repetindo. Como um disco riscado. Mas tudo bem. Porque meu disco riscou na faixa preferida da vida. Onde preferir a vida inteira é uma sinapse que meu corpo não esquece.
Então repetir não é ser o mesmo. Porque a minha vontade de sentir sempre me faz outra.
Outra vontade de viver ainda um pouco mais em cada segundo.
Sem tanto acostumar. Sem tanto deixar passar.
Quando a voz do cara cantava na minha vida ele já tinha deixada aquele corpo atravessado pela música. Pode-se dizer que a morte dele nunca foi portanto uma novidade pra mim. Mas não muda como amarra o peito no momento do filme em que a morte sorri pra ele. Porque quando a vida vai embora pra alguém que nos faz sentir vivo, a gente fica ainda mais vivo. Ou morre um pouco. Por não dar contar de abarcar a perda que a vida contém. E se viver inclui essa dor, eu sou ela também. Pra sentir-me inteiramente. Finalmente pulsante. Viva.

 

Arrebatadora vida, como é bom te receber em mim.

 

Infinitamente em cada segundo. Estourando a onda. Latente. Afim do encontro. Desamarrando as anestesias. Entregue ao reconhecimento da força. De ter o corpo atravessado pela arte e pela vida… que alarga as faltas, os fundos e os mares de dentro. De cismar a sorte de riscar o disco na faixa da vida. Porque essa sinapse meu corpo não esquece, de querer sentir-me mais e mais viva. Agora. E sempre.
“Don’t stop me now, I’m having such a good time. I feel alive and the world I’ll turn it inside out, yeah”

Hoje esse pulso forte que a vida me dá me faz querer dizer a vida aos que comigo pulavam nessa época, nessa onda, nesse solo. Correr aos meus encontros e pular de cabeça.

Porque dedico a vida aquilo que me faz sentir viva.

Para Henrique Caldeira de Barros, Gustav Marcus Luba, Marina Martins, Cristiano Akutsu, Remo Loria, Gina Loria e tantos outros encontros verdadeiros que vive ali, entre o Queen e um Vivaldi na orquestra da escola (Colégio Micael).

Um disco na adolescência…. uma ida ao cinema…
Sobre a importância da arte na vida de quem está afim de estar vivo muito, além da sobrevivência.

Quando lancei meu primeiro show solo, claro, cantei Queen:
https://bit.ly/2PUr1aY

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